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  • André Martins

Fome no Brasil dispara para níveis de três décadas atrás, atingindo 33 milhões de pessoas

As pessoas famintas aumentam em 14 milhões por ano, de acordo com uma pesquisa nacional da Rede Penssan, uma aliança de pesquisadores acadêmicos e ONGs.

Uma pesquisa de porta em porta em todo o Brasil traduziu em uma radiografia detalhada o que é óbvio com o aumento espetacular de moradores de rua, as filas em frente aos refeitórios e como os açougues estão vazios nas áreas rurais ou nas favelas: o aumento acentuado da fome.


Cerca de 33 milhões de brasileiros (16% da população) não têm o que comer, segundo pesquisa da Red Penssan, aliança de pesquisadores acadêmicos e organizações da sociedade civil, divulgada nesta quarta-feira.


Em pouco mais de um ano, os famintos aumentaram em 14 milhões (ou seja, mais do que os habitantes de São Paulo, a cidade mais populosa da América Latina). Durante a pandemia, a fome disparou para níveis de três décadas atrás.


Nem a epidemia de coronavírus nem o agravamento da crise econômica que ela implicou são os únicos fatores que explicam esse aumento brutal da fome.


Esta segunda pesquisa nacional aponta para os efeitos desastrosos do desmantelamento de políticas públicas vitais para as famílias pobres. Por exemplo, compras institucionais que permitem que pequenos agricultores tenham renda para o fornecimento de alimentos para escolas. As crianças que não vão à escola significam aprender menos, mas também comer pior porque não têm mais café da manhã ou lanche garantidos.


O levantamento baseia-se em visitas a mais de 12.000 casas espalhadas por quase todo o vasto e desigual território do país, que foram realizadas entre os últimos meses de novembro e abril.


Nilson de Paula é pesquisador de Políticas Públicas, um dos autores do relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, e assim define a fome:

“Quando um familiar deixa de comer, não sobra comida, nem tem dinheiro para comprá-lo." O professor da Universidade Federal do Paraná ressalta por telefone de Curitiba que "a fome é um processo".

Antes que você comece a sofrer com isso, as necessidades se acumulam. Os 33 milhões de famintos fazem parte de um grupo muito maior, o dos 125 milhões de brasileiros que convivem diariamente com a preocupação de ter dinheiro ou comida para colocar no prato no café da manhã, almoço ou jantar.


A fome volta a ser uma das suas bandeiras, como era no início do século.


A fome, como tudo no Brasil, não escapa da desigualdade. Como os ativistas brasileiros costumam dizer, tem gênero e cor. As informações coletadas pelos pesquisadores nos permitem fazer um raio-X dos famintos. Eles moram em uma casa — ou barraco — chefiada por uma mulher negra com filhos e localizada no interior do norte do país.


O professor de Paula ressalta que, "numa sociedade marcada por profundas desigualdades como a brasileira, não é possível que o problema da fome seja resolvido por meras forças do mercado".


Ele explica que nos últimos anos “a negligência do Estado tornou-se decisiva. Há uma precariedade sistemática das políticas públicas”, promovida por governos a favor do Estado mínimo. E a pandemia agravou um cenário cada vez mais hostil para os pobres, com o desemprego aumentando e os salários e a renda caindo.


Como se isso não bastasse, uma inflação que está entre as mais altas do mundo está corroendo especialmente os bolsos de quem tem menos. E a inflação come o aumento do salário mínimo. Dados que pintam um quadro catastrófico para grande parte dos brasileiros.


Um terço dos cidadãos vive com menos de meio salário mínimo, fixado em 1.212 reais. A fome no Brasil é um problema, sobretudo, de renda, de falta de dinheiro, insiste o coautor do relatório. Para ilustrar isso, ele oferece os seguintes dados: "Entre os que ganham acima do salário mínimo, a fome, a insegurança alimentar grave, é de apenas 3%".




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